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Michelangelo Antonioni

Com a morte do cineasta italiano, o cinema perde um de seus gênios

Renata Hydalgo

Matéria publicada na edição 243 (Setembro/2007) de SET

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O que faz de um cineasta um gênio? É o domínio da linguagem cinematográfica? É a habilidade de contar uma boa história, e de forma original? É a capacidade de inovação? Michelangelo Antonioni, cineasta italiano que morreu em 30 de julho, reunia todas essas características. Em qualquer lista que se preze dos cem, cinqüenta, vinte ou dez melhores filmes do século 20, sempre haverá algum - e muitas vezes não só um - filme do diretor. A revista Sight and Sound, publicação inglesa e uma espécie de Bíblia do cinema, elegeu, em 1961, os dez melhores filmes de todos os tempos. A Aventura (1960) ocupou o segundo lugar, atrás apenas de Cidadão Kane. Foi o primeiro filme de uma trilogia que ficou conhecida como a da incomunicabilidade e que marcaria o diretor como mestre em expressar a dificuldade de interação.

Italiano da cidade de Ferrara, era de fato um sujeito calado. Por ironia do destino, sofreu um acidente vascular cerebral em 1985 que paralisou parte do corpo e roubou, para sempre, sua voz. Desde então, sua mulher, Enrica Fico, que foi sua assistente de direção, era quem falava por ele. Se por um lado não era grande conversador, foi observador atento do universo que o cercava. O interesse pela imagem plástica o levou a pintar ainda jovem uma série de quase duzentas telas - conhecidas como "Montanhas Encantadas" - só de paisagens, cheias de cor e de pedras. Mais tarde, como cineasta, valorizaria sobretudo a imagem, mais do que os diálogos, em takes longos, planos fixos e o enquadramento preciso como uma pintura.

O olhar clínico também notava belas mulheres. Dirigiu algumas das atrizes mais desejadas - e competentes - de seu tempo: Alida Valli, Jeanne Moreau, Maria Schneider, Vanessa Redgrave, Jane Birkin e Monica Vitti, com quem viveu um longo romance. Vitti atuou nos três filmes que compõem a trilogia da incomunicabilidade: A Aventura, A Noite e O Eclipse. O projeto apresenta uma sociedade burguesa vazia, sem alma e, acima de tudo, entediada. O poeta do tédio, como Antonioni foi descrito, explorou o tema da tremenda dificuldade de comunicação dessa sociedade, e os conseqüentes desencontros nas relações afetivas ali existentes.

O cineasta que melhor soube exprimir angústias existenciais e a relação do indivíduo com a sociedade poderia ter estudado psicologia ou sociologia, mas, curiosamente, formou-se em economia e comércio pela Universidade de Bologna. Trabalhar com números, porém, nunca foi seu forte, e Antonioni conseguiu o primeiro emprego como crítico de uma revista de cinema editada pelo filho do ditador Benito Mussolini. Demitido da publicação em apenas seis meses, passou para o outro lado da telona, inicialmente como assistente de direção e roteirista. Ainda sob forte influência do neo-realismo, estreou na direção fazendo documentários a partir de 1943.

A longa e fértil carreira produziu uma dezena de documentários, 25 longas, e rendeu importantes prêmios: Leão de Ouro no Festival de Veneza por Deserto Vermelho (1964), Urso de Ouro no Festival de Berlim por A Noite (1961) e a Palma de Ouro em Cannes por Depois Daquele Beijo (1966). Recebeu apenas duas indicações para o Oscar: roteiro e direção por Depois Daquele Beijo, mas não levou o prêmio. Em 1995, ano em que lançou Além das Nuvens, co-dirigido por Wim Wenders, a Academia o premiou pelo conjunto da obra. Mas, de novo, o destino pregou uma peça: a estatueta dourada não ficou muito tempo nas mãos do diretor. Foi roubada um ano depois, por ladrões que invadiram sua casa.

Aclamado pela crítica, nem sempre foi compreendido pelo grande público. O filme A Aventura, por exemplo, chegou a ser vaiado após a primeira exibição no Festival de Cannes, em 1962. Foi responsável, com outros diretores do cinema italiano de sua geração - Fellini, Rossellini, Visconti, Pasolini - por uma fase de ouro na produção cinematográfica do país. Antonioni inovou completamente a estética cinematográfica: suas obras desconstruíram o formato da narrativa convencional de um filme. Há seqüências de eventos que - aparentemente - não fazem sentido algum, mas acabam por se revelar importantes elementos do enredo. Inquieto, fez filmes até nos últimos anos de vida, mesmo após o derrame. Morreu aos 94 anos, em casa, ao lado da mulher. E finalmente encontrou o silêncio.

O MELHOR DE ANTONIONI EM DVD


- Eros (Itália/Hong Kong/EUA, 2004)
- Além das Nuvens (Al di là Delle Nuvole, Itália/França/Alemanha, 1995)
- O Passageiro - Profissão: Repórter (Professione: Reporter, Espanha/Itália, 1975)
- Zabriskie Point (EUA, 1970)
- Depois Daquele Beijo (Blow-up, Inglaterra/Itália, 1966)
- Deserto Vermelho (Il Deserto Rosso, Itália/França, 1964)
- O Eclipse (L'Eclisse, França/Itália, 1962)
- A Noite (La Notte, Itália/França, 1961)
- A Aventura (L'Avventura, Itália/França, 1960)
- O Grito (Il Grido, Itália/EUA, 1957)
- As Amigas (Le Amiche, Itália, 1955)
- Amores na Cidade (L'Amore in Città, Itália, 1953)

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