SET > Setembro/2007 > Como se tornar um cineasta no Brasil

Show me the money!*

O último passo antes das filmagens também é o mais difícil de ser tomado por cineastas novatos. Afinal, como você deve captar o dinheiro para seu longa?

Sérgio Rizzo

Matéria publicada na edição 243 (Setembro/2007) de SET

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A pior notícia da série de reportagens "Como Se Tornar Um Cineasta no Brasil" vem agora. Está preparado para ouvi-la? Pois bem: fazer cinema custa caro. Às vezes, muito caro. É verdade que, em um país como o nosso, os valores envolvidos são muito inferiores aos dos EUA, por exemplo. Superproduções nacionais estão orçadas neste momento em cerca de 10 milhões de reais (5 milhões de dólares); e os longas-metragens de ficção mais baratos, a partir de 1,2 milhão de reais (600 mil dólares). Produções de baixo orçamento no mercado norte-americano dificilmente saem hoje por menos de 10 milhões de dólares. Produções médias, por lá, gastam na faixa de 50 a 100 milhões de dólares.

O problema é que não há termo de comparação entre as receitas geradas pelo mercado cinematográfico dos EUA - que vende cerca de 1,5 bilhão de ingressos por ano, algo como cinco ingressos per capita, sem contar a receita de produções norte-americanas gerada por mercados estrangeiros, vídeo doméstico e TV - e o do Brasil, que estacionou em cerca de 115 milhões de ingressos por ano, ou 0,6 ingresso per capita, e pouco arrecada no exterior. Além disso, apenas 10 por cento do mercado brasileiro, nos últimos anos, é ocupado pela produção nacional. Existe apenas uma sala de exibição para cada 90 mil habitantes, contra uma para cada 8 mil habitantes nos Estados Unidos.

Como notícia ruim vem quase sempre acompanhada, mais outra: nesse mercado restrito, levantar dinheiro para a produção de um filme é tarefa que ocupa até mesmo os mais experientes profissionais da área durante anos. Ao final dessa maratona, alguns obtêm, se não 100 por cento do orçamento, ao menos o mínimo necessário para viabilizar o projeto, somando quantias de diversas fontes. Outros, no entanto, são obrigados a abandonar a idéia porque bateram em inúmeras portas e não conseguiram levantar os recursos. "Considerando todos os valores obtidos com as leis de incentivo e o dinheiro que os produtores investem por conta própria, o montante destinado à produção cinematográfica no Brasil gira em torno de 90 a 100 milhões de reais por ano", estima o cineasta André Pompéia Sturm (Sonhos Tropicais), coordenador do Programa Cinema do Brasil, destinado a estimular negócios no exterior, e coordenador de Fomento e Difusão da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. "É uma quantidade considerável de recursos. O problema é que há um número muito grande de projetos circulando atrás deles - o correspondente a cerca de 1 bilhão de reais. Então, fica difícil."

A maior parte desse montante é destinada à produção cinematográfica por meio de leis de incentivo e concursos públicos. As empresas que canalizam recursos para esse fim - em sua maioria, públicas ou controladas pelo Estado - são as chamadas "guichês", poucos e muito concorridos. "Cerca de 50 por cento do valor investido em filmes no Brasil, por ano, vem de cinco empresas estatais", observa Sturm. Essa concentração impede que seja profissionalizada, ao menos para cinema, a figura do captador. Assim, o trabalho de levantamento de recursos é feito pelo próprio cineasta, quando assume também o papel de produtor, ou pela companhia produtora. "Não acredito em captador", brinca o cineasta Gustavo Steinberg. "Essa profissão, de fato, não existe, embora algumas pessoas, ao que parece, consigam trabalhar com isso."

Produtor e roteirista de Cronicamente Inviável (2000), de Sérgio Bianchi, e de 1,99 - Um Supermercado que Vende Palavras (2003), de Marcelo Masagão, Steinberg foi também produtor do documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro (2004), de Paulo Sacramento. Desde 2001, quando escreveu a primeira versão do roteiro, ele dedica-se a Fim da Linha, seu primeiro longa como diretor, com estréia prevista para abril de 2008. "A situação piorou muito nos últimos anos", avalia. "A sensação é de que houve uma inflação de projetos. Como o dinheiro distribuído para cada projeto pelos concursos diminuiu, é preciso ganhar todos os prêmios para tornar viável a produção." Steinberg lembra que apenas três longas-metragens de ficção foram inteiramente rodados em São Paulo durante o primeiro semestre de 2007 - muitos projetos estão suspensos à espera de complementação do orçamento. Até a alguns anos atrás, havia uma boa quantidade de filmes rodados que permaneciam inacabados porque precisavam de dinheiro para a finalização. Agora, a dificuldade localiza-se na ponta inicial da linha de produção.

É consensual, entre cineastas, a idéia de que só haverá mudanças concretas se for promovida a efetiva regulamentação do mercado, hoje nas mãos das grandes distribuidoras estrangeiras, que chegaram a ocupar cerca de 90 por cento das salas de exibição com o lançamento em seqüência de Piratas do Caribe 3, Homem-Aranha 3 e Shrek Terceiro. "É preciso onerar um pouco mais a exibição de filmes estrangeiros", acredita Steinberg. Diferentemente do que ocorre na França, não se paga nenhuma taxa expressiva por lançar um filme estrangeiro no país com 400 cópias. Como o circuito nacional tem pouco mais de 2 mil salas, megalançamentos obrigam os demais longas (inclusive ianques) a disputar as migalhas.

Se as dificuldades já são grandes no eixo Rio-São Paulo, onde se concentra a economia brasileira e, por conseqüência, a produção cinematográfica, o que dizer a quem procura recursos em outras regiões para viabilizar filmes? "Se a perspectiva do realizador for ampla, de acordo com o conceito de audiovisual, e incluir produção para a TV, ele até pode, em alguns casos, pensar em permanecer na sua região", diz Sturm. "Mas cinema é uma indústria cara. Não dá para ter muitos pólos de produção. É assim também nos EUA." Uma das alternativas para financiamento encontra-se lá fora: as co-produções com outros países. Em 2006, o Programa Cinema do Brasil possibilitou que cerca de dez projetos de longas brasileiros levantassem, com parceiros no exterior, cerca de 25 milhões de dólares. Estima-se que, nos próximos quatro anos, o crescimento seja geométrico. "A co-produção internacional demora", afirma Sturm. "Primeiro, você pega na mão. Depois, dá um beijo. Aí começa a namorar e só mais tarde pensa em se casar. Não se faz negócio com desconhecido, em quem você não confie."

* "Mostre-me a grana!", frase dita por Cuba Gooding Jr. em Jerry Maguire. Mas você já sabia disso, não?

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Clayton Júnior

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