Cate Blanchett
A atriz australiana apareceu há dez anos em Elizabeth, ganhou o primeiro Oscar no papel de Katherine Hepburn em O Aviador e agora recebe dupla indicação, por Elizabeth: A Era de Ouro e Não Estou Lá
Ernst Reinhart/IFA
Matéria publicada na edição 249 (Março/2008) de SET
A tarefa de entrevistar Cate Blanchett nunca é árdua. Inteligente e boa de papo, a australiana de Melbourne é uma das pessoas que tornam uma forma de arte mais prazerosa de estudar. Apareceu há dez anos no papel de rainha da Inglaterra em Elizabeth, quando recebeu sua primeira indicação ao Oscar, passou um tempo ofuscada com papéis menores em boas produções (O Talentoso Ripley, O Dom) até ganhar o iconográfico papel de Galadriel em O Senhor dos Anéis, no qual serviu, inclusive, de narradora. Virou estrela de primeira grandeza em Hollywood, mas sem perder o tino artístico ousado, derivado de seus tempos com uma das maiores atrizes dos palcos teatrais da Austrália. Ganhou a primeira estatueta do grande prêmio do cinema pelo papel de Katherine Hepburn em O Aviador, de Martin Scorsese, e emplacou mais dois retornos ao Kodak Theatre com Notas Sobre Um Escândalo e a dupla indicação por Elizabeth: A Era de Ouro e Não Estou Lá, biografia solta de Bob Dylan que estréia neste mês no Brasil.Desta vez, acomodada num hotel de luxo em Roma, Cate não parecia tão à vontade. Desenhando rascunhos num caderno e brincando distraída com balinhas de menta (inclusive derrubando uma delas no decote do belo vestido negro que veste), a atriz parecia em outro mundo. E não esconde isso. "Estou assim porque não quero estar aqui conversando", diz sincera e suavemente. "Minhas crianças estão em Sydney e é lá que gostaria de estar. Desculpe a honestidade." Pode não ser a resposta que o repórter sonha em ouvir, mas também abre portas para saber que todas as suas perguntas serão respondidas com o máximo de nitidez e sobriedade, sem os típicos sorrisos falsos e frases prontas de Hollywood. Afinal, estamos falando de uma mulher que vira Bob Dylan numa das fases mais conturbadas e prolíficas de sua genialidade. Quer moleza? Basta cobrir a nova temporada de Malhação.
Você hesitou no começou para aceitar esse papel...
Esse é o mito que foi criado. Shekhar começou a falar sobre a seqüência algumas semanas depois do filme original ter acabado. E, claro, após quatro meses longe de meu marido e recém-casada, a última coisa na passava na minha cabeça era interpretar a rainha Elizabeth novamente. Também senti que uma certa distância era necessária para contarmos uma história diferente. Então, o tempo passou e a personagem é infinitamente fascinante, mas várias mulheres na história também são. Por isso, perguntei qual o roteiro e qual a personagem, porque geralmente há personalidades extraordinárias no cinema, mas a trama termina decepcionando. Porém, assim que o projeto emergiu e Clive Owen e Geoffrey Rush subiram a bordo, seria muito perverso dizer não.
Você interpretou Katherine Hepburn antes e, agora, Bob Dylan. Qual foi o desafio de interpretar personagens reais tão conhecidos?
Depende do contexto. Quando Scorsese pede para você interpretar Katherine Hepburn, você fala: "O que você quiser que faça, eu faço". Estava completamente aterrorizada pelo desafio, porque sabe que vai falhar. Podemos deixar Scorsese e algumas pessoas felizes, mas existe uma enorme sensação de posse em relação à Katherine Hepburn. E o fato de interpretá-la na tela, na forma que é tão reverenciada, conhecida e amada, geraria comentários como "Essa aí não é minha Kate." E tenho certeza que as pessoas falam o mesmo de Elizabeth ou Bob Dylan. Contudo, o que importa no final é a conversa com o diretor e com aqueles que colaboram com você.
Por que tanto receio de interpretar Hepburn?
Acredito que seja pelo fato de interpretá-la literalmente. E estava fazendo isso a cores, quando todos nós a conhecíamos dos filme em preto-e-branco. Isso é uma distração visual imensa. Em Não Estou Lá, o fato de ser uma mulher atuando como um homem chamado Jude Quinn, que nem mesmo é Bob Dylan, que eram seis pessoas interpretando um personagem, significa que não é uma biografia comum. Você sabe que será uma noite diferente.
Você fica muito tensa antes de começar a filmar?
Existe uma linha tênue entre ansiedade e empolgação. Ao longo dos anos, acho que aprendi a controlar a sensação. Se você consegue transformar a ansiedade em energia e excitação, ela se torna algo útil. Então, tento traduzir isso todas as vezes que estou num palco ou nas filmagens, apesar de nunca ter idéia de como começar.
Quanto tempo leva para converter essa energia?
Estava muito ansiosa ao sair de Elizabeth: a Era de Ouro para Bob Dylan. Estava comprometida com Não Estou Lá há bastante tempo e levaram muito tempo para conseguir o orçamento, porque era um projeto arriscado. E quando Todd (Haynes) finalmente conseguiu o dinheiro, precisávamos começar a filmar uma semana depois de terminar A Era de Ouro. Isso me deixou louca. Falei que uma semana não era suficiente nem para empacotar minha casa e meus filhos, imagine sair da rainha da Inglaterra para Bob Dylan. Minha agente, que nunca fala o que devo fazer, me ligou e falou: "Filmes assim não são feitos todos os dias. Então, pare de reclamar e vá embora para Montreal".
Você sempre leva as crianças paras as filmagens?
No primeiro Elizabeth, ainda não tinha filhos e seria absolutamente impossível me separar deles por três meses. Me mataria. Me casei e em uma semana fui filmar. Foi quando juramos nunca mais fazer isso novamente, porque relacionamentos não sobrevivem à distância.
É um privilégio ser capaz de interpretar uma mesma personagem duas vezes em dez anos. O que Elizabeth inspira tanto?
Acho que a proeza intelectual é muito inspiradora. Imaginar o quão educada ela era e quantas línguas falava. Num período da história, ela era uma soberana bem humanista, não que isso a impedisse de cortar umas cabeças (risos). Ela era alguém razoável e uma pensadora esclarecida. E isso veio de uma mulher que nunca deixou as margens da Inglaterra. Então, sua noção de curiosidade e contínuo autodidatismo são inspiradores.
Além da arte da atuação, quais outros assuntos lhe atraem?
Tento ler tudo que posso. Você também aprende muito ao conversar com pessoas incríveis. Sou muito grata por ter sido ensinada como uma criança, de aprender de fontes diversificadas, mas sempre vindo delas a diferença entre fato e suposição. Acho que perdemos hoje em dia a habilidade de disseminar informação.
Como suas crianças reagiram quando viram a mãe como rainha?
Primeiramente, falaram: "O que você está fazendo?". Depois, adoraram, porque eles eram cavaleiros. Na época, meu filho mais velho estava realmente na fase de adorar cavaleiros. Então, foi um timing perfeito.
Agora que você está no novo Indiana Jones, ele está vidrado em arqueólogos?
Ele amou todos os caminhões e a ação no set. Foi fantástico, principalmente porque Steven Spielberg e Januz Kaminski, o diretor de fotografia, foram muito receptivos com as crianças.
Você está fazendo um filme após o outro, tem dois filhos e ainda cuida de uma companhia teatral. Como consegue equilibrar tudo isso?
Um dia de cada vez. Sou incrivelmente afortunada como uma mãe que tem um companheiro tão presente e estou me aventurando com ele na companhia teatral. É ótimo ter uma vida criativa com meu marido tão completa e cuidar de duas crianças maravilhosas. Sou como qualquer outra mãe, escolho quando trabalhar e quando não trabalhar. É muito duro para uma mãe que trabalha o dia inteiro sem parar. Estou numa posição privilegiada e não esqueço disso.
Certa vez, você disse que se sentia traindo as pessoas que amava ao sair para trabalhar. Ainda sente o mesmo?
Sempre. Todos os dias que saio.
Pensa em diminuir a carga de filmes agora?
Sim. Tive um período extraordinário, porém, ano passado, estava no palco com Hedda Gabler em Nova York, filmei A Era de Ouro, trabalhei em Não Estou Lá e ainda dirigi uma peça. Não posso fazer isso todos os anos. Se tiver sorte, farei um longa por ano. Seria ótimo.
Giorgio Armani virou o patrocinador de sua companhia teatral. O que isso implica?
Ele não é um patrocinador, mas o patrono da companhia. É uma posição única. O sr. Armani, se você olhar em termos de filantropia, é um homem extraordinário. Olhe o que ele fez na África; é alguém interessado em educação e bolsas de estudo; e também tem uma longa relação com teatro e cinema, tendo trabalhado com Scorsese a Bob Wilson. É uma honra tê-lo ligado a nossa companhia teatral. Foi ótimo receber seu apoio, porque, apesar de ser estatal, ela só recebe oito por cento do financiamento do governo. As pessoas falam sobre os teatros nacionais em Londres, que recebem 44 por cento do orçamento do Estado. Não é o caso na Austrália, onde também não há uma cultura de apoio filantrópico. Então, somos sortudos que o sr. Armani reviveu essa antiga arte da filantropia em nosso país (risos).
Você está vestindo Armani agora?
Não.
Houve uma certa polêmica por sua indicação para dirigir a companhia...
Polêmica sempre é excitante. Nunca houve um casal nesta posição, porque é uma companhia relativamente jovem, formada no começo dos anos 80, e poucos diretores artísticos passaram por lá. E realmente acredito que a mídia, de uma maneira banal, é incrivelmente obcecada por celebridades. É mais ou menos como transformar Saddam Hussein em Osama Bin Laden. De repente, um ator de teatro muito respeitado vira uma celebridade do dia para a noite. Nós ainda nem começamos a pegar pesado. Meu marido está trabalhando há um ano com Robin Nevis para programar a temporada 2008. É interessante que a imprensa não se importa com a programação, mas apenas no fato que o Sr. Armani entrou na companhia.
Agora que você se mudou de volta para Sydney, o que mais sente falta da Inglaterra?
Sentimos muitas saudades de Brighton e do clima. Provavelmente, sou a única pessoa a falar uma coisa dessas, mas acho o calor na Austrália muito chato. E o racionamento de água é assustador.
Você falou que gosta de passar um tempo confinada em espaços pequenos dentro de sua casa. Por quê? Seria por causa da abertura de sua vida profissional?
Isso é Dr. Freud falando? (risos) Quando criança, sempre gostei de subir nos armários da sala. Quanto menores, melhores. Minha cama dos sonhos era dentro de uma parede, um armário onde você pudesse se trancar dentro. Sempre gostei de espaços pequenos debaixo das camas, quase como um hobbit. Peguei um livro sobre a Holanda e vi que existe algo parecido por lá.
Qual foi o último filme que viu?
Assisti à Stalker (de Andrei Tarkovsky, 1979) e também Rei Leão (1971), de Peter Brook, que nunca tinha visto. É incrível.
As pessoas esperam que você liste filmes mais recentes. Isso significa que não há longas interessantes sendo rodados hoje em dia?
Nos tornamos muito literais em relação ao modo que vemos um filme. Uma obra como Elizabeth, todos esperam que seja uma lição de história, porque somos todos pouco educados. As pessoas dizem: "Não foi assim que aconteceu". Mas podemos notar que Shekhar não está interessado em cronologia.
Veremos você numa terceira parte de Elizabeth?
Bem no futuro e debaixo de camadas de maquiagem? Quem sabe? Certamente não quero fazer isso semana que vem.
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