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O homem da máscara de ferro

Na pele do milionário Tony Stark, Robert Downey Jr. prepara-se para conquistar o mundo

Por Roberto Sadovski, de Los Angeles

Matéria publicada na edição 250 (Abril/2008) de SET

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Robert Downey Jr. chega atrasado para a entrevista com SET. Ok, menos de 10 minutos de atraso numa manhã de domingo nem é muito se levarmos em conta o passado, digamos, festeiro do ator. Mas isso são águas passadas. Downey, que chegara da Showest em Las Vegas dias antes sagrado como "Astro do Ano", está em modo Homem de Ferro full time. Afinal, depois de anos desenvolvendo uma reputação como grande intérprete (e outros ficando "limpo" de álcool e drogas antes de encarar mais uma vez a indústria), esta é sua grande chance de virar astro. Não que ele não seja. Ou que ele dê muita importância. Mas o fato é que, bem humorado, afiado e disposto como um super-herói, Downey é, hoje, o profissional consumado - mesmo que não leve mais esse jogo tão a sério, como ele atesta na entrevista a seguir.

Então agora você é um super-herói. Isso de salvar o mundo, ter super-poderes, derrotar o mal, é um fenômeno americano?
Discordo radicalmente. Super-herói são figuras mitológicas e elas vêm de todo lugar. O que Hollywood e a cultura americana fizeram foi torná-las acessíveis - como em uma história em quadrinhos, em contraste com um conto de fadas, um mito nórdico ou uma lenda alemã. Sem falar que a idéia de colocar um traje, uma armadura, e combater o mal é mais antiga até do que histórias medievais, vêm de tempos bíblicos - idéias, por sinal, muito mais científicas do que religiosas.

Como Homem de Ferro, você também vai ter de combater Indiana Jones, Batman, Speed Racer...
É, valeu, esse filme é da companhia de minha mulher (risos). As coisas estão um pouco tensas em casa... Mas eu acho que isso deveria acontecer todo ano! Eu acho que posso enfrentar esses caras...

E por que demorou tanto?
Boa pergunta... Estou tentando lembrar quando esses filmes de fato começaram a ser feitos, dez, quinze anos atrás. Eu estava fazendo coisas diferentes, pensando em coisas diferentes... Eu não sei. Quando fiz Chaplin, eu pensava que (o diretor Richard) Attenborough e eu tínhamos esse destino, pensava em Charlie. Você pode dourar a coisa como quiser, a verdade é que eu fiz um filme, fiz uma biografia. Em minha mente, em meu coração, eu imaginava uma espécie de comunhão com este grande artista, pensava que ia transcender minha carreira. Depois fui indicado ao Oscar, a coisa toda passou, e eu fiquei profundamente deprimido. Para Homem de Ferro, eu fiz um teste, fiz o filme e agora estou aqui, pensando que eu e Favreau temos um destino, que é uma comunhão com Stan Lee... (risos) A gente sempre pode dizer que não passou de um trabalho. Ou que vai além disso. O que, para mim, não deixa de ser irônico.

Como foi o relacionamento com a Marvel?
Sabe, tem uma coisa que costumava me deixar furioso, quando alguém fazia um discurso e mandava um "Eu queria agradecer à toda família da Fox"... Família? Eles não dão a mínima se você arrebentar seu carro num poste, contanto que você possa promover um filme (risos). Mas a Marvel é mesmo uma família, pelo menos é como a gente se sente. Avi Arad, Kevin Feige... Esses caras estão na trincheira o tempo todo. Até quando eu era chato e sugeria mudanças -o que não era raro. Mas eles também eram uma família no sentido de que, mesmo sabendo que você está no centro de um filme desse tamanho, não significa que você está certo.

Mas você mergulhou neste mundo para sempre estar certo...
Eu sei que parece besteira, mas eu me preparei feito doido para esse papel! Para fazer o teste, eu fui fundo. Eram três cenas, muito bem selecionadas, por sinal, para mostrar que Stark não é um personagem unidimensional. A primeira era com os soldados no humvee, não lembro da segunda, que até foi cortada do roteiro final, e a terceira é quando eu encontro uma repórter na frente do Disney Hall, ela diz que eu sou um lixo e depois a gente transa... (risos) Eu passei dias obcecado por cada linha, a postura de Stark, suas reações... Qualquer outro ator iria direto do teste para um hospital psiquiátrico. (risos) O mais interessante é que ele se tornou um sujeito solitário, mesmo com toda sua glória, seu sucesso material e influência. É até triste quando ele e mostrado em sua oficina, e seus melhores amigos são máquinas. Ele precisa fazer sua vida valer a pena, porque fazer uma ratoeira da morte mais eficiente não é viver de fato. O que ele faz o deixou solitário.

Como você encaixaria Homem de Ferro neste universo que a Marvel está criando no cinema? Afinal, Tony Stark tem uma cena em O Incrível Hulk...
Eu acho que eles estão pavimentando o caminho para que, se haver disposição em investir uns 800 milhões de dólares para ver todos esses personagens juntos num único filme, a base estará pronta e o mundo estará construído. Mas você vê com Liga da Justiça que existe uma tendência em fazer filmes assim. Essa seria a versão bacana da Marvel.

Depois de participar de um projeto tão gigantesco, você ainda se vê em filmes menores?
A verdade é que cada filme é um filme. Eu estava na ShoWest há alguns dias, e fizeram um painel com os filmes que fiz ao longo dos anos... Eu não sei, é esquisito, é como olhar a fatura do cartão de crédito de um ano inteiro e pensar, "Olha como fui idiota!". Eu não vou olhar para onde meu dinheiro foi durante um ano inteiro e dizer "Cara, estou aliviado, que bacana". Eu sempre fico irritado. Então, olhando para o que eu fiz, para minha carreira... é legal, mas eu preferi o painel de Brendan Fraser, com George, O Rei da Floresta, A Múmia, O Homem da Califórnia... Legal pra cacete! E ele ainda disse que era tudo uma ilusão, uma brincadeira... Devia levar um cascudo!

Alguma vez você ficou surpreso por te chamarem para fazer um candidato a blockbuster?
Não. Eu fiquei feliz. Mas acho que eu tinha de torcer para o meu time. Se eu não acreditar em mim, quem diabos vai acreditar? É psicologia básica - e acho que por isso eu atravessei a fase mais complicada de minha vida. Se você olhar para trás, uns quinze, vinte anos, eu sou o único cara daquela geração que ainda não tinha feito um filme desse porte. Bom, talvez Sean Penn... E talvez outros não tenham feito por motivos que eu não tenho. E eu não entendo esses motivos. Eu quero fazer as coisas grandes, por que não?

Você disse que ficou deprimido quando terminou Chaplin. É assim em todo filme?
Acho que foi um caso à parte. Eu me preparei por tanto tempo, foi algo muito importante, e quando as filmagens terminaram todo mundo foi para casa e eu fiquei na Suíça, bêbado, nem sabia o que ia fazer. O pessoal do hotel me aconselhava a sair - até os contadores não estavam mais lá! Mas eu estava cansado, era a Suíça, a comida era jóia, as mulheres também, eu ia para onde? Para casa? Tem gente que chama isso de depressão, e tem gente que chama de a idéia certa. (risos)

E você teve tempo de ficar deprimido depois de Homem de Ferro?
Cara, eu não tive tempo nem de pensar. Emendei Homem de Ferro com Tropic Thunder, que também não foi bolinho - e uma experiência fantástica. Agora estou fazendo um drama. Eu não tenho folga há dezesseis meses. Mas estou adorando, e acho que era o que eu deveria ter feito em minha carreira desde o começo.

Como foi trabalhar com Ben Stiller em Tropic Thunder?
Como posso colocar isso... Estávamos no Havaí, o que é jóia. Eu estava usando maquiagem de efeitos especiais, o que não é tão jóia. O lugar era lindo e fazia Sol, o que é jóia. Estávamos carregando quinze quilos de roupas e equipamentos do exército, o que não é tão jóia. A ilha era maravilhosa, o que é jóia, e a gente passava doze horas por dia até o joelho em bosta de porco, o que não é tão jóia. Se eu estivesse lá fazendo mesmo um filme sobre o Vietnã, provavelmente seria um saco. Mas como era uma comédia, com a premissa ridícula sobre atores fazendo um filme sobre o Vietnã, foi bacana.

E seu personagem tem o rosto pintado de preto, já que você faz um ator que interpreta um soldado negro...
(interrompendo) Eu juro que estou evitando falar de Tropic Thunder até que as pessoas o tenham visto, já que alguns jornalistas que entenderam tudo errado já começam um papo assim: "Então, você é racista e está fazendo Homem de Ferro". (gargalhadas) Eu dou um grito e o cara emenda: "Você é preconceituoso e interpreta Tony Stark num filme sobre um negro". Daí eu digo: "Você é idiota!". E o sujeito: "Racista". Acho que você pode entender minha hesitação... Mas é sobre o ego de alguns atores que levam tudo a sério, sim.

E nada de alcoolismo em Homem de Ferro...
Não desta vez. Como é uma história sobre sua origem, já temos coisas demais para desenvolver, tipo como ele se torna o Homem de Ferro, quem é ele, quais seus desafios... Para esse filme, a gente não quer entrar no "e ele é um bêbado". Mas queremos voltar a essa história no segundo filme.

Quais os desafios da armadura? Afinal, já é o sexto filme com o Batman e só agora ele consegue virar o pescoço...
Ao menos isso não foi um problema. Mas o traje do Batman é de borracha. O nosso ao menos tinha de parecer com metal, então você pode imaginar as conseqüências. Eu e os dublês, Oakley Lehman, Mike Justus e um cara no final que era melhor que todos nós (n. do e.: no caso, Daniel Stevens), estávamos sempre tomando conta um do outro.

Mas você chegou a usar o traje completo?
Uma ou duas vezes. Mas, sabe, minha cabeça é de um tamanho médio. Mas eu não era o mais alto. Meus braços são mais longos - o que fazia com que fosse mais fácil para quem tinha braços mais curtos. Mas o capacete deixava um dos dublês com dores, já que ele era grande. Em outro, havia espaço de sobra no capacete, mas as botas eram pequenas demais. A armadura foi feita para servir a várias pessoas diferentes, não uma só. Quando eu cheguei, ainda disse que era loucura, que eu era o Homem de Ferro, que o traje deveria servir perfeitamente em mim... Daí lembrei o que teria de fazer usando aquela coisa - e o que não podia fazer enquanto usava! Às vezes me chamavam para o set e eu chegava com um colante de ginástica. Do contrário não poderia tomar nenhuma cerveja.

Robert Downey Jr. como o milionário Tony Stark

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