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Charlton Heston, o magnífico

A morte de Charlton Heston traz a lembrança do grande ator que se destacou vivendo líderes de diversas épocas

Dulce Damasceno de Brito

Matéria publicada na edição 251 (Maio/2008) de SET

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Charlton Heston não foi unanimidade. Mesmo agora, por ocasião de seu falecimento, aos 84 anos, no último dia 5 de abril, a manchete de um noticioso referia-se a ele com o termo canastrão. Ledo engano. Ele foi um ator completo, capaz de dar intensidade a um personagem de Shakespeare ou a um simples fazendeiro virgem. E não sou eu que digo isso, basta ler a análise de suas interpretações em diversos países e veículos nas mais variadas ocasiões. Está certo, era sua admiradora há anos, desde que o entrevistei pela primeira vez na Paramount, durante as filmagens de Selva Nua, em 1953. Na ocasião, tão perturbada fiquei que escrevei a minha irmã anunciando-o como meu novo amor em Hollywood, ao lado de Gregory Peck. Essa aventura era em torno de um fazendeiro na região amazônica do século 19 que "importa" uma esposa virgem, a bela Eleanor Parker. Mas o personagem, casto, se deixa dominar pela ira ao saber que ela já não preenchia os requisitos - na verdade, era viúva. Heston me colocou à vontade e, sabendo que era brasileira, perguntou se as marabuntas (as formigas gigantes da história) já tinham me incomodado. Disse que não, eram raras em São Paulo. Demos boas risadas. Em seguida falou do filme e da carreira em Hollywood, iniciada para valer por volta de 1950, em uma modesta versão da peça Julio César, de Shakespeare, em que era Marco Antonio.

Tempos depois, em junho de 1955, vi-o filmando Os Dez Mandamentos. Heston estava muito compenetrado no trabalho, mas gentilmente me cumprimentou e disse que havia sido escolhido para ser Moisés por causa de sua semelhança com o Moisés esculpido por Michelangelo. O diretor Cecil B. DeMille confirmou, mas falou que levou em conta a força natural do ator e seu impecável caráter pessoal, em uma Hollywood povoada de astros e estrelas que raramente escapavam das fofocas e da luxúria. Heston era uma exceção e creio que essas mesmas característica levaram William Wyler a o escolher para Ben-Hur, que lhe deu o Oscar de melhor ator de 1959, e Anthony Mann para El Cid. Lá, ele aprofundou-se ainda mais nos estudos da vida de Rodrigo Diaz de Vivar, o herói conhecido como El Cid. Esse perfeccionismo percebi ao vivo nas filmagens de Da Terra Nascem os Homens ensaiando uma briga. "Pode bater mesmo", dizia Heston para um Peck algo travado, com receio de machucar o amigo e colega.

PRESENÇA NO BRASIL
O ator esteve por duas vezes por aqui. A primeira, em 1978, para promover o lançamento de SOS Submarino Nuclear, no qual interpretava o capitão Blanchard. Fui entrevistá-lo na sua luxuosa suíte em um hotel no Rio de Janeiro. A longa conversa só foi interrompida quando pediu licença para levar o café-da-manhã a sua esposa Lydia Clak, com quem permanecia casado desde 1944. O casal teve o filho Fraser Clarke e adotou Holly Ann. Na ocasião, falando dos filhos, ele fez questão de dizer que não forçou a barra para Fraser ser diretor de cinema. A segunda vez foi no começo de 2003, quando interpretou Joseph Mengele em My Father, Rua Alguém 555. Título curioso para uma co-produção ítalo-húngara-brasileira que nunca foi lançada comercialmente no Brasil, onde o sinistro criminoso nazista viveu por muitos anos. Heston rodou suas cenas em Belém, Manaus e Rio de Janeiro, à frente de um elenco que incluía os brasileiros Odilon Wagner e Ida Gomes, entre outros. Foi o último dos cerca de 120 filmes que fez e que tem clássicos como O Senhor da Guerra e O Planeta dos Macacos.

Alguns meses depois, o casal Heston fez a última aparição pública: foi na festa dos 90 anos da Paramount. Pareciam felizes, embora se soubesse que ambos estavam enfrentando o câncer. Não demorou muitos dias para o ator anunciar oficialmente que estava com o mal de Alzheimer. "Não pretendo mais falar com jornalistas porque daqui a algum tempo não vou saber quem vocês são e nem quem eu sou", disse. Foi o começo de uma longa batalha para esse americano de Evanston, Illinois, nascido em 4 de outubro de 1924. No seu falecimento, muitos enfatizaram suas declarações em um filme de Michael Moore, sobre a National Rifle Association, entidade a favor das armas que presidiu durante alguns anos. Mas poucos se lembraram de seu ativismo político pela igualdade racial, ao lado de Martin Luther King, e dos avanços que conquistou para a categoria ao presidir o Sindicato dos Atores de Hollywood entre 1966 e 1971. Em 1965, adotou uma atitude singular no cinema americano: quando atuava em Juramento de Vingança, devolveu seu salário aos produtores com a condição de que permitissem ao diretor Sam Peckinpah concluir e refilmar cenas que considerava essenciais. E assim foi feito. Um gesto nobre e coerente com a notável integridade desse carismático e magnífico ator. Charlton Heston é insubstituível.
   

Divulgação

Charlton Heston

Charlton Heston

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